No âmbito da disciplina
Design de Comunicação Visual foi proposta a realização de uma infografia
tipográfica. Com base num texto de um artigo ou de uma notícia teria de ser
desenvolvida uma infografia apenas recorrendo a elementos tipográficos.
Resumidamente, tipografia é a composição de um texto
usando símbolos alfabéticos, numéricos e de pontuação, com o objetivo de
reproduzi-lo múltiplas vezes, minimizando o esforço e o custo. Segundo Stanley
Morrisson em Príncipios Fundamentais da
Tipografia (1936): “A tipografia pode ser definida como o ofício de dispor
corretamente o material a imprimir para atingir um objetivo específico – o de
colocar as letras, distribuir os espaços e controlar os tipos, de forma a
oferecer ao leitor a máxima ajuda na compreensão do texto. A tipografia é o
meio eficaz para conseguir um fim essencialmente utilitário e só acidentalmente
um deleite estético, já que o gozo visual das formas raramente é a inspiração
principal do leitor. Assim, é incorreta qualquer disposição de material de
imprensa que, seja por que razão for, produza o efeito de se interpor entre o
autor e o leitor”.
Focámo-nos primariamente na escolha do artigo. Depois de
uma breve pesquisa optámos pelo artigo de opinião da autoria de Ricardo Araújo
Pereira, “Carta aos 19%”, publicado na revista Visão. A sua atualidade,
pertinência e bom humor chamaram-nos logo à atenção. Também notámos um certo
carácter gráfico – tratando-se de um texto facilmente esquematizado – e uma
predominância de determinadas palavras, o que nos ajudaria muito na escolha das
mesmas.
O artigo trata o tema do desemprego, um dos maiores
problemas em Portugal, um dos maiores temores. Está em formato de carta e
dirige-se aos 19% de desempregados em Portugal, logo, faria sentido que a
tipografia tivesse essa mesma forma, um 19.
Nota-se
rapidamente uma tendência muito irónica, o assunto é tratado de forma muito
bem-disposta, quase como se ser-se desempregado fosse uma vantagem e devêssemos
agradecer. Uma visão positiva, mas claramente irónica, do Portugal em que
vivemos hoje. Uma série de imagens positivas para camuflar o verdadeiro
flagelo. E daqui retiramos a nossa primeira ideia, conceber a tipografia assim
mesmo, apenas com palavras positivas, camuflando o desemprego como verdadeiro
problema. A escolha da cor não foi em vão, aproveitamos o tom esperançoso do
artigo e utilizamos o verde para todas as palavras positivas, não só associado
à esperança mas também ao frescor, à juventude e ao vigor. Apenas a palavra
desemprego se encontra a preto, bem marcado, dando uma ideia de morte, de luto,
de tudo o que é mau e talvez até de alguma luxuria o que faz todo o sentido
quando o artigo tem frases como “A tua necessidade de arranjar emprego está
muito acima das tuas possibilidades. É possível que a tua necessidade de comer
também esteja”. Utilizamos duas fontes para esta parte, Utsaah e Times New
Roman. Dividimos as palavras utilizadas em duas categorias. Todas as que fossem
mais sérias e ligadas com política e organização seriam escritas com Times New
Roman, uma fonte serifada e muito clássica, sendo portanto apropriado. Todas as
outras palavras mais simples, mais ligadas às atividades, vontades e
sentimentos humanos foram escritas com Utsaah, por se tratar de uma fonte não
serifada e muito simples, encaixando muito bem, não há nada mais simples e
primitivo do que a vontade humana.
Também
durante todo o texto está demarcada uma comparação entre o hoje e o
antigamente, por exemplo: “Antigamente, estávamos todos a viver acima das
nossas possibilidades. Agora estamos só a viver, o que aparentemente continua a
estar acima das nossas possibilidades”. Tentamos dar alguma ênfase a este
contraponto e dar voz à ideia popular do “antigamente isto não era nada assim”.
A palavra “antigamente” é aquela que mais aparece ao longo da tipografia. Tentamos
posicionar as palavras de forma a não se distinguirem muito bem e a parecerem a
típica escrita à máquina através da ideia de não haver espaçamento entre
linhas. Para isso também a fonte escolhida foi indispensável. A Courier New é
uma fonte monoespaçada, de serifa egípcia, projetada para assemelhar a escrita
à máquina de escrever. Trata-se então do estilo de letra perfeito para o que
pretendíamos transmitir.
O
símbolo da percentagem tem também uma razão de ser. Tentamos integrar algumas
ideias mais simbólicas que encontramos no texto. Estão então representadas as
“janelas de oportunidade” e a “fila para o centro de emprego”.
Com este trabalho pretendemos experimentar, provar e
recriar a ideia do tipógrafo Roger Bringhurst que diz que as letras têm
sonoridade, timbre e personalidade, assim como as palavras e frases. Como a
tipografia pode ser considerada o vestido da palavra escrita, também nós
tentamos vestir esta nossa ideia de forma a mostrar o que a tipografia tem para
oferecer. Costuma-se dizer que uma imagem vale mais do que mil palavras, o que
transmitirão as palavras vestidas de imagens?








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